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Carlos Lisboa era especial

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altFalámos com Tim Shea, treinador norte-americano que passou pelo Benfica no início dos anos 90. Tim Shea é um senhor do basquetebol mundial.

Com uma larga experiência no jogo, este norte-americano treinou clubes como o Breogan, Ourense e Atlético de Madrid (Espanha), Maccabi Jerusalém (Israel), Seoul Samsung (Coreia do Sul) e o Benfica, no início dos anos 90, antes da chegada de Mário Palma. Também tem no currículo vários anos como olheiro internacional a trabalhar para equipas como os New York Knicks, Phoenix Suns e Charlotte Bobcats. Hoje em dia, para além de colaborar com uma reconhecida agência de jogadores, Tim Shea divide o seu tempo entre Espanha e os Estados Unidos. O Planeta Basket encontrou-se com ele e não podia esperar melhor de um homem com a sua carreira.


Foste um dos treinadores que passou pela frente da melhor equipa portuguesa de todos os tempo, o Benfica dos anos 90. Como foi a tua experiência em Portugal?
Foram épocas cheias de sucesso e de jogos fantásticos, um período muito importante da minha vida. As pessoas, os jogadores, os directores, o clube, a cidade, a comida, tudo em Lisboa era maravilhoso. Para além disso, a minha filha Olívia nasceu em Lisboa e isso eu não posso esquecer. Ganhámos dois títulos nacionais e jogamos na Taça dos Campeões. Ganhámos alguns jogos de exibição contra equipas espanholas e mantínhamos uma atitude vencedora, num grupo excelente ao nível humano. Confesso que me arrependi algumas vezes de ter saído, mas a proposta económica do Atlético de Madrid de Jesus Gil era demasiado alta para recusar.

Os jogadores do Benfica naquela época estavam ao nível dos melhores da Europa?
Sim, sem dúvida, o Carlos Lisboa acima de todos eles. Ele foi, com o Walter Berry, o melhor jogador que alguma vez treinei. Tinha muita imaginação, uma tremenda presença atlética, fabuloso nos movimentos ofensivos e duro na defesa, sempre que era preciso. O Jean-Jacques e o José Carlos Guimarães, que vinham da escola angolana, eram também tremendos jogadores e excelentes companheiros de equipa.

Achas possível voltarmos a ter um jogador do nível do Carlos Lisboa? Como se forma um jogador como ele?
Não me parece. O Carlos Lisboa era um grande atleta e isso é algo que não se ensina. Não sei se alguém poderá igualar aquilo que o Carlos fazia. Nos dias de hoje, o Carlos estaria a jogar na NBA e com minutos significantes, tenho a certeza disso. Qualquer jogador que chegue perto do nível do Carlos Lisboa será um jogador fantástico. É claro que não se deve dizer nunca, mas o Lisboa era mesmo mesmo especial.

Continuaste a trabalhar na Europa, como treinador e como olheiro de equipas da NBA, qual a visão que tens hoje do basquetebol português?
Foi-me dito, por alguns amigos e pelo meu agente, António Pereira, que os clubes e a competição estão a ser afectados pela falta de patrocinadores, devido à crise económica mundial. Mais do que tudo, acho que em Portugal o futebol é o desporto-rei e o basquetebol tem que lutar pelo seu lugar, ou perderá importância. Pessoalmente, adoro o vosso país e Lisboa, e não diria não a uma proposta para voltar a trabalhar aí.

Passaste por Portugal, Itália, Espanha, Áustria, Israel… Quais as diferenças entre o que acontece no basquetebol de cada um destes países?
Todos eles, excepto Israel, têm uma coisa em comum: o futebol é o desporto-rei. E no final das  contas, é o dinheiro quem manda. Falo de patrocinadores, do acompanhamento das televisões, da força de cada uma das federações nacionais. Há uma enorme crise que tem atingido os clubes mais pequenos na sua capacidade para encontrar patrocínios. E é cada vez maior a diferença entre estes e os grandes clubes que têm equipas de futebol, que detêm um poder económico quase ilimitado. Em Espanha temos um triste exemplo. O Barcelona e o Real Madrid são dois gigantes ricos e poderosos. O vizinho do Real, o Estudiantes, anda a fazer contas para ver se consegue pagar as contas do próximo mês. O caso do Joventut Badalona é semelhante, ao lado do Barcelona. Esses “novos pobres” do basquetebol são equipas tradicionalmente conhecidas pelas suas “canteras” e por alimentar o basquetebol espanhol com novos talentos. É preciso encontrar uma resposta para o que está a acontecer e dessa resposta depende o futuro da modalidade. O futur
o é agora.

Também tiveste uma experiência na Coreia do Sul. Como é o basquetebol asiático? Há semelhanças com o europeu?
É muito diferente. Os patrocinadores, no caso da equipa que treinei, a Samsung, têm um controlo directo de tudo o que se passa na equipa, como os jogadores, os treinadores e os pavilhões. Não existe uma estrutura de clubes como na Europa. Espera-se que os jogadores vivam juntos, em residências, e joguem muitos jogos em curtos períodos, às vezes três jogos da liga numa semana! O tipo de jogo é semelhante ao da Conferência Oeste da NBA, correr e lançar, “viver e deixar viver”. Foi uma excelente experiência mas acabou precocemente quando um dos assistentes coreanos humilhou publicamente um dos jogadores, com palavras e murros na cabeça. Eu não queria fazer parte daquele filme e pedi a demissão. Abusos e violência não têm lugar no desporto, ponto final.

Como olheiro internacional, quais as características a que dás mais atenção?
Eu procuro envergadura, velocidade, inteligência e ambição. Tudo começa por aí.

E quais as diferenças entre um jogador prometedor para a NCAA e um jogador prometedor para a NBA?
São coisas muito diferentes, sem comparação. São diferenças entre competições amadoras e profissionais. Muitos são possíveis jogadores da NCAA, quase nenhuns da NBA. Eu diria que há uma diferença de 20,000 para 1.

Quais os países que estão a trabalhar melhor na formação de jogadores?
Espanha, Lituânia, Itália e Alemanha.

Tens trabalhado também na formação de treinadores. Quais as principais características que um treinador deve ter?
Um bom treinador é uma conjugação de um líder, um professor, um amigo e um decisor. O basquetebol precisa que os treinadores sejam bem preparados e capazes. O treinador precisa de ser paciente, de querer aprender sem parar. Adorar o jogo e ser humilde são capacidades essenciais. O basquetebol é um jogo simples e apenas os maus treinadores o complicam.

O que é mais importante? Formar treinadores que liderem equipas profissionais ou treinadores para a formação de jogadores?
Um treinador é um treinador é um treinador. Não há diferença entre onde, com quem, se és pago ou não. O treinador de uma equipa de miúdos é tão importante quanto o Phil Jackson, a única diferença é a forma como a sociedade o vê.

Que mensagem deixarias para quem tem vontade de viver no Basquetebol, como jogador ou treinador?
Estudem e trabalhem muito. Vivam da maneira certa. Respeitem o jogo e as pessoas envolvidas nele. Mantenham uma mente aberta. Trabalhem em rede com outros apaixonados pelo jogo.

Achas que o Planeta Basket tem um papel a desempenhar na formação de jovens ligados ao basquetebol?
Claro que sim. Desde sempre que os meios de comunicação e os especialistas escreveram diariamente sobre a modalidade. Aquilo que eles escrevem é o que dá importância ao jogo e os jovens são atraídos pelo efeito criado por esses textos. Sem o trabalho destas pessoas, os jovens não encontrariam motivação para continuarem ligados ao basquetebol. O Planeta Basket e os outros sites que fornecem informação, vídeos, notícias sobre campos de treino e todos os pormenores sobre o jogo têm, não só um papel a desempenhar, mas eu diria mesmo que são essenciais para o futuro do basquetebol.

Obrigado, Tim, pelas tuas palavras.
Eu é que agradeço o facto de teres feito esta entrevista e gostaria de aproveitar para cumprimentar todas as pessoas que estiveram comigo e com a minha família em Portugal. Finalmente, dizer que mantenho a esperança de um dia as poder voltar a ver. 

 

Comentários 

 
+5 #1 Paula 01-12-2010 15:09
Boa tarde
Cresci "dentro" de pavilhões de basquet a ver o meu pai treinar e jogar e ainda hoje ele fala do Tim Shea e dessa equipa que o Benfica teve. ;-)
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