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Entrevista com Zé Mário

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altDepois da breve apresentação de ontem, chegou o momento mais alto da semana dedicada a Zé Mário.

Numa grande entrevista, o antigo jogador do Sporting CP e da Selecção Nacional responde às perguntas do Planeta Basket. Se o querem conhecer melhor, não podem perder!


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Muito Bom Dia, Zé Mário! Obrigado por ter aceite o nosso convite. Para começar, quando é que pegou pela primeira vez numa bola de basquetebol? E onde?
Iniciei-me no Sporting, no dia 1 de Janeiro de 1952, no campo do Passadiço (sede do clube).

Porque escolheu o basquetebol em vez de outra modalidade?
Jogava voleibol no liceu e o meu pai, como sportinguista, inscreveu-me no Sporting. Quando me apresentei, estranhei não ver a rede de voley no campo e só soube que o treino era de basquetebol quando entrei no vestuário. Não recusei a sessão,  já que estava ali, fui experimentar, gostei e fiquei!

Como foram os seus primeiros passos na prática do basquetebol?
O treinador, prof. Mário Lemos, era um excelente educador. Devo salientar que toda o meu percurso de jogador ficou marcado com o “timbre” do prof. Mário Lemos; prática desportiva sim, mas com correcção e com muitas chamadas de atenção para a persistência da aprendizagem dos movimentos técnicos. A repetição dos movimentos técnicos era constantemente transportada para a prática em situações de jogo.

Quando é que efectuou o seu primeiro jogo oficial e com que número na camisola?
O primeiro jogo oficial foi em 1953, não me recordo qual foi a primeira equipa adversária. Estreei-me com a camisola número 10 e que mantive até passar a senior. Na altura, o nº 10 era o Abílio Ascenso e a minha única opção era escolher um dos números vagos. Escolhi o 14.
 
Quais eram as suas principais características e a sua posição em campo, enquanto jogador?
Até senior,  joguei sempre a poste. Depois,  passei a jogar mais a ala ou extremo. Quando era preciso, passava pela posição de  poste.

Quanto tempo ficou no Sporting CP? Que recordações guarda desses tempos?
Estive no Sporting de 1952 a 1965 (13 anos) 1968 e 69 (2 anos), o que totalizou 15 anos. Guardo excelentes recordações vividas com colegas e adversários.

Quais foram os colegas no Sporting CP, que mais o marcaram?
Desportivamente, os colegas que mais me marcaram foram o Hermínio Barreto e o Abílio Ascenço. Movimentos técnicos, atitudes e reacções foram objecto de fixação e de correcção.

Porque saiu do Sporting CP rumo ao Clube Nacional da Natação?
A minha saída do Sporting deveu-se ao relacionamento existente entre o então treinador e a equipa. Era um excelente técnico, de nacionalidade brasileira, com quem aprendi muito (como jogador e treinador) e que realizou um excelente trabalho nas equipas inferiores. A minha primeira decisão foi abandonar o basquetebol. Como o Manuel Campos treinava o Clube Nacional de Natação e eu, nesse ano, passei a treinar o Ateneu Comercial de Lisboa, decidimos jogar nos clubes em que cada um treinava. O Manuel Campos foi jogar no Ateneu e eu no Nacional de Natação.

Depois do CNN jogou um ano nas Caldas da Rainha. Duas mudanças em dois anos. Porquê?
Nessa época, o então treinador do Sporting, regressou ao Brasil, e eu, como outros colegas que tinham saído do clube, pelo mesmo motivo, decidimos regressar.  Uma das opções que tinhamos para voltar ao Sporting, segundo a lei de amadorismo existente, era jogar num clube a 50 kms de Lisboa. Decidimos ir para o Sporting Clube das Caldas, filial  do S.C.P. e que estava na IIº Divisão . Foi uma época inesquecível, familiar, de confraternização saudável e onde deixei grandes amigos.
O S.C.C., ganhou o seu primeiro Campeonato Nacional. Guardo, com muito orgulho, a medalha de Mérito da Cidade das Caldas da Rainha,  por conquistarmos  o primeiro Campeonato Nacional para a cidade. No ano seguinte, regressei ao meu Sporting.

Jogar em Angola foi um desafio? Como surgiu o convite e porque o aceitou?
Jogar em Angola foi uma decisão proveniente da actividade profissional. A empresa onde trabalhava investiu em Angola e entendeu que os novos quadros deveriam passar previamente pelas empresas instaladas em Moçambique e Angola. Optei por Angola por ser uma experiência nova, a empresa ia nascer nesse ano. Enquanto que em Moçambique, já era uma empresa madura e de sucesso.

A opção pelo basquetebol, deveu-se ás amizades com pessoas do Clube Ferroviário, com uma forte relação profissional e tendo como treinador um antigo colega no Sporting, José Santos. O meu compromisso foi jogar uma época.

Na época seguinte, como havia a Universíada em Portugal, o Manuel Campos, também meu colega na Robbialac,  convidou-me para jogar no CDUA ( Clube Desportivo Universitário de Angola). Matriculei-me na Faculdade de Medicina para poder ir à Universíada, representando Angola, mas por motivos políticos (a inesquecível contestação estudantil contra a ditadura) a Universíada não se realizou.

Quais foram os treinadores que lhe passaram pelas “mãos”?
Tive como treinadores: Prof. Mário Lemos (SCP e FPB);  prof. João Coutinho (SCP e FPB);  Fernando Ribeiro (SCP);  prof. Guilherme Bernardes (SCP); engº J. Godinho (FPB), Ten. Corn. Alfredo Neves (FPB); Máximo Couto (ABL);  prof. Teotónio Lima ( esperanças FPB); prof.Herminio Barreto (SCP); engº Luís Santos (SCC); Manuel Campos ( CNN e CDUA) e José Santos (CFLuanda).

Qual foi aquele que mais o marcou e porquê?
Como educador desportivo, o prof. Mário Lemos. Com conhecimentos técnicos acima do nível do basquetebol nacional, o prof. Guilherme Bernardes.  Não pósso deixar de mencionar o prof. Teotónio Lima, como o melhor técnico português na altura, apesar da minha passagem pela sua orientação técnica ter sido muito curta. 

Qual foi o momento enquanto jogador que nunca mais vai esquecer?
Os melhores momentos que recordo foram os chamados jogos difíceis, onde fiz as melhores exibições. Não destaco nenhum em especial.

Qual foi o melhor cinco que integrou?
Foi, exactamente, o do último ano que joguei no Sporting. Ganhámos tudo onde entrámos, excepto, quando formámos a selecção e jogámos contra o Brasil….

Qual foi o adversário mais difícil de defrontar enquanto jogador? Porquê?
A nível nacional, o Benfica. Durante vários anos andámos a perder campeonatos por diferenças mínimas. O Benfica evoluíu com a aquisição de novos jogadores e com o excelente trabalho do prof. Teotónio Lima.

Quantas vezes foi internacional?
Se não me falha a memória, tive 20 internacionalizações, repartidas por:

  • Junior (FISEC – Federação Internacional de Estudantes Católicos) 5 jogos;
  • Senior: Provas oficiais 9;
  • Jogos particulares da selecção no Brasil: 6

Quais eram os jogadores da selecção na altura?
Os mais frequentes foram: H.Barreto, A. Garranha, A. Ascenso,  J.Alberto,  J.Carlos, M. Mexia, R. Pires, J. Valente, M. Campos, J.Macedo e M. Machado..

Qual foi o jogo com a selecção nacional que mais o marcou? Porquê?
Os jogos com a selecção do Brasil. Jogos efectuados após o Brasil vencer, por duas ou três vezes, o Campeonato do Mundo de Basquetebol.

Qual era o jogador internacional que mais admirava na altura? Porquê?
Admirava o Emiliano (R.Madrid), um dos melhores jogadores da Europa, pela facilidade de lançamento e velocidade de movimentos (com e sem bola). Não esquecendo o norte-americano Bob Cousy (NBA).

O Planeta Basket desafia-o a fazer o 5 ideal dos jogadores, que praticavam basquetebol na sua época, respeitando as posições:
O meu cinco ideal na época final: J. Alberto, J. Carlos, M. Mexia, H. Barreto e R. Pires.

O que motivava os jogadores daquele tempo a praticar desporto e em particular o basquetebol?
Eramos amadores. O clube pagava os transportes. As botas, se queria melhores, comprava-as. Recordo que os campeões regionais e nacionais eram os chamados clubes pequenos. As escolas ajudavam modestamente a  fomentar  a pratica desportiva e os clubes de bairro desenvolviam as modalidades ( basquetebol, andebol e voleibol ). Este movimento criava nos jovens e familiares, para além dos adeptos dos respectivos clubes, o entusiasmo e interesse pela modalidade. Nas grandes cidades, os grandes clubes eram um forte  polo atractivo  para a sua representação.

É verdade que foi convidado a vestir a camisola do Real Madrid. E se é verdade porque não aceitou o convite?
Esse convite não passou de uma oportunidade que me foi dada,  caso fosse estudar para Madrid e optasse pela naturalização. O Real tinha dois excelentes norte-americanos e um ou dois porto-riquenhos. Pela lei espanhola não poderiam estar em campo mais do que dois jogadortes estrangeiros. Creio que os porto-riquenhos beneficiavam de outro estatuto.

Nada mais do que isso. Especulou-se, houve até notícias de que eu já estaria a treinar em Madrid, o que era falso. O Sporting esteve sempre em contacto e conhecedor da situação.

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Enquanto treinador, em que clubes trabalhou?
A minha carreira de treinador foi praticamente exclusiva no Sporting, como treinador das equipas jovens. Quando interrompi a minha presença no clube, aceitei um convite do Ateneu Comercial de Lisboa para treinador. Aceitei  e nesse ano, o Ateneu conquistou o Campeonato Regional da II divisão. Na época seguinte regressei ao Sporting.

Foi o responsável pela criação dos primeiros três centros de formação no Sporting CP. Como surgiu a ideia?
No ano em que voltei ao Sporting como jogador, aceitei ficar como técnico coordenador das escolas de jogadores. Criámos três centros de formação, a funcionar aos fins da tarde, na Escola Manuel da Maia (Campo de Ourique), Estádio José Alvalade e Escola Nuno Gonçaves (Alto de S.João/Graça).

O Objectivo foi aproveitar a disponibilidade dos ginásios que o Sporting alugava  para treinos do basquetebol e fomentarmos a prática da modalidade via escola ou bairro. A divulgação aos jovens e pais era feita por via do jornal do Sporting e nos quadros de informativos das respectivas escolas.

Quais foram as pessoas ligadas aos centros?
Tivemos três técnicos (jogadores seniores) Ernesto Silva, Edgar Vital e A.Guimarães (?). Chegámos a ter cerca de 150 inscrições.

Recordo que esta equipa técnica realizou o Iº Torneio de Minibasquetebol de Lisboa do S.C.P., com o apoio do prof. Mário Lemos (convite que lhe apresentei pessoalmente, tendo em conta o seu envolvimento no Minibasquetebol nacional).

O que pensa do site Planeta Basket?
Foi para mim uma grande e agradável surpresa. Estou afastado do basquetebol desde 1972. Ainda acompanhei alguns resultados quando o Sporting tinha a modalidade. Depois tudo se apagou!!! Vejo a NBA pelo canal próprio da TV, quanto ao basquetebol nacional sou um ignorante. O Planeta Basket possibilitou-me, recentemente, uma informação mais ampla do que se passa no basquetebol.

É evidente que não escondo a satisfação que tive ao ler as LENDAS. Foi reviver nomes e caras (fotos), tal como as conheci e que permaneceram gravadas no meu computador cerebral.

Aproveito para agradecer ao Ivan o convite para esta entrevista, obrigando-me a repescar do “baú” as saudosas recordações do basket.

Por fim, deixe aqui a sua mensagem para os leitores do Site Planeta Basket:
A mensagem é muito curta! Passámos a ter o “nosso” site do basket. Aqui, podemos obter a informação que desejamos e apreciamos sobre a modalidade. A participação é importante, seja com o envio de sugestões ou opiniões. Quanto maior for a participação, maior será o desafio e ideias que prestamos aos produtores do site. Este é o espaço onde actualizamos e reunimos a nossa melhor informação sobre a modalidade, o VALOR do nosso interesse informativo.

Aos produtores do Planeta Basket os meus Parabéns e as maiores felicidades para o contínuo desenvolvimento do VALOR do site.

A todos um grande abraço!

 

Comentários 

 
+10 #2 San Payo Araújo 08-12-2010 11:52
Caro José Mário

Não nos conhecemos pessoalmente, mas permita-me que o trate deste modo, pois queria aproveitar a sua excelente entrevista para lhe narrar uma pequena história que pode ser um bom exemplo para as gerações mais novas e que me foi contada pelo seu treinador e meu tio por afinidade Mário Lemos.

O Mário Lemos como refere sempre foi exímio e muito preocupado com a correcção e perfeição da execução técnica dos fundamentos do jogo. Sempre que queria dar o exemplo do jogador que ele tinha treinado que mais correctamente realizava os fundamentos vinha à baila o seu nome, associado a uma enorme capacidade de trabalho individual.

Há um relato do meu tio que me marcou muito, Contava o Mário Lemos que depois de explicar um movimento,por exemplo o gancho e o mandava executar repetidas vezes o lançamento numa tabela em trabalho individual, se por estar atento a outras coisas do treino, por acaso se esquecia dessa instrução,, passado um quarto de hora ou vinte minutos olhava para si e lá continuava o José Mário a executar os ganchos sempre na procura da perfeição.

Não tenhamos dúvidas que a perfeição, após assimilado o movimento correcto, só é possível com milhares de repetições.

Parabéns pela entrevista e espero que este pequeno grande exemplo marque as gerações mais novas como me marcou a mim.
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+10 #1 lfc 07-12-2010 17:37
Excelente entrevista!

Esperemos que possa servir de inspiração para que o basquetebol volte a marcar presença entre as modalidades do Sporting Clube de Portugal.

Parabéns.
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