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Venha conhecer Florindo "Porky" Vieira

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altBons exemplos nunca são demais e o PlanetaBasket faz questão de relembrar aqueles cujo passado não deve ser esquecido. Esta semana vamos trazer até si mais uma história de vida de luta, de superação e de coragem perante os inúmeros problemas que a vida lhe colocou.

Mas mais do que isto, o homem de quem vos falamos foi provavelmente o Português que esteve mais próximo de jogar na NBA... Venha conhecer Florindo "Porky" Vieira!
 
Para começar, leia o texto de apresentação de Porky Vieira, escrito por José Manuel Garcia.


Florindo "Porky" Vieira, O português que esteve mais próximo da NBA

Faz mais de meio século que o racismo estava na ordem do dia na sociedade americana. Mas os problemas não acabavam com a côr da pele. Por exemplo, o bairro de Hollow em Connecticut, era habitado por uma grande colónia de famílias trabalhadoras de imigrantes irlandeses e italianos. Não é que tivessem uma grande estima uns pelos outros, mas ao menos suportavam-se. Em finais dos anos 30, chegaram ao bairro 5 famílias portuguesas, e no meio de uma delas aparece o protagonista da nossa história, Florindo Vieira.

Os recém chegados passaram a ser o branco da ira dos habitantes do lugar. Era a maneira que tinham de defender o status social que tinham alcançado. Os jovens portugueses passaram a ser The Little Portagee Bastards. O filho dos Vieira, não se deixava intimidar. Desde muito pequeno, dia após dia defendia a sua raça, e à custa de uns murros bem dados foi ganhando o respeito do bairro e deixou de ser um Portagee Bastard, para converter-se primeiro em Portee, e finalmente em Porky, o apelido alcunha que o acompanhou nos últimos 65 anos da sua vida.

Certo dia, o seu irmão Gus decidiu levar o pequeno Porky ao Middle Street Boys Clube ( O centro recreativo do bairro). Que melhor maneira de reconduzir a agressividade do jovem Porky que encaminha-lo para a actividade desportiva. Nenhum dos dois suspeitou que nesse momento aquele lugar se converteria no segundo lar de Porky.

"Olha para esse rapaz” – disse o seu irmão Gus fazendo sinal a Ernie Petrucciano, que estava a jogar basquetebol " Talvez se actuasses como ele não te metias em tanta confusões”. Entretanto o desporto convertia-se na sua válvula de escape, curiosamente Porky e Petrucciano acabaram tornando-se companheiros inseparáveis dentro e fora das pistas, sendo também padrinhos das suas respectivas bodas. Durante mais de uma década foram companheiros de equipa tanto no basquetebol como no basebol. Desde a escola primária até que se formaram na universidade.

O primeiro passo das suas trajectórias foi de gigante. Com 12 anos eram as estrelas da equipa de 40 quilos do Boys Club. Naqueles anos mais que por idades, as equipas mais jovens classificavam-se por peso. A sua missão era competir contra outras equipas da sua categoria nos intervalos dos jogos da NBL.

Eram apenas 8 minutos de jogo, para Porky naquela altura já conseguia marcar 14 pontos com facilidade, ao mesmo tempo ia cumprindo o sonho de jogar em recintos míticos com o Bóston Garden ou no Madison Square Garden.

Tendo em conta o seu peso naqueles anos, podemos fazer uma ideia de que tanto Porky como Ernie Petrucciano não estavam em via de ser uns postes de 2 metros, mas tudo o resto estava bem encaminhado. Petrucciano acabou por ser o mais pequeno dos dois ficando-se 1,60m. Porky cresceu um pouco mais, mas não muito, ficou pelos 1,65m. As suas mãos sempre foram muito pequenas, a bola nelas parecia como uma de praia nas mãos de um bebé.

Para compensar a desvantagem, Vieira baseava o seu jogo numa velocidade endiabrada, que naqueles anos surpreendia muito, chegando a ser comparado com o demónio da Tasmânia. O handicap de lançamento deixaria de ser um problema como veremos mais adiante.

Chegados à sua época de instituto, com os Hiltoppers da Central High Scholl, uma das melhores equipas do estado de New England. Na sua primeira temporada, Porky passou bastante desapercebido. Poderia dizer-se que a grande alteração da categoria unido ao forte ambiente dos pequenos ginásios dos rivais, assustou Porky que até aquele momento tinha superado todos os desafios na sua vida. Era claro que isto não ía ficar assim. Passou todo o verão fechado no Boys Club treinando quase sempre sozinho os seus pequenos ortodoxos lançamentos, em sessões de 8 ou mais horas, e muitos dias nos quais o termómetro passava os 40º de temperatura. Este trabalho daria os seus frutos, e na seguinte temporada foi a maior a nível colectivo da sua etapa no instituto. Apesar de ser do segundo ano, Porky converteu-se no sexto jogador de uma equipa que acabaria por ganhar o campeonato estatal de New England no Bóston Garden.

Estes êxitos não fizeram mais do que animá-lo a não parar no seu esforço. No horizonte esperava-lhe o desafio de liderar uma equipa campeã que via os seus 5 seniores titulares acabarem a sua etapa escolar. Depois de mais uma verão de tortura no Boys Club, Porky seguiu com a sua grande progressão, com uma média de mais de 16 pontos, apareceu no cinco ideal do estado e além do mais levou a sua equipa até as semi-finais , a qual perderam por um ponto.

A sua última temporada no High Scholl foi o verdadeiro ponto de inflexão, o inicio da sua lenda. Num dos primeiros encontros, no recinto de Norwalk, marcou 41 pontos para esmagar o velho record estatal de 32. A partir desse dia ficou imparável, conseguindo mais de 30 pontos em 13 dos últimos jogos. Todas as pessoas queriam ver o novo fenómeno, os recintos esgotavam 2 horas antes do começo e inclusive a imprensa local chegou a destacar como titular o facto de que Porky somente marcara 25 pontos num jogo.

Esta demolidora capacidade de encestar não bastou para chamar a atenção das universidades. Todas duvidavam do rendimento que teria, principalmente na defesa, um escolta de 1,65m e apenas 60 kgs. Porky Vieira acabou por entrar no modesto Arnold College, mas logo o abandonou para trabalhar na indústria metalúrgica de Bridgeport.

Quando parecia que o destino o afastava do basquetebol, apareceu Tuggie Maroon, treinador da universidade de Quinnipiac que em 1953 ofereceu duas Bolsas de estudo completas a Porky e ao seu inseparável amigo Petrucciano. Desde o primeiro dia Porky começou a escrever de novo a história desta universidade, e á base de concretizar lançamentos sucessivos conseguiu que partilhassem notícias da imprensa com as grandes potências da NCAA da época. Como novato atingiu uma média de 37,1 pontos, segundo em todo o país só atrás de Bevo Francis, que marcou mais de 47 pontos naquele ano mágico.

Nas temporadas seguintes as suas médias baixaram para os 29/30 pontos para voltarem a subir no seu ano de sénior, quando manteve uma luta cerrada com Ken Hammond (jogador de West Virgínia Tech) por conseguir o galardão de melhor marcador. No final Porky repetiu o segundo lugar por 1 ponto, ou que é o mesmo, 3 centésimas de média: 34,89 a 34,86.

Naquela temporada apareceu na prestigiada lista de nomeados ao prémio de All-American, e no cinco ideal Small-America no que se incluíam os melhores jogadores de menos de 1,80m.

No resumo dos 4 anos que esteve em Quinnipiac, Porky Vieira conseguiu 2.649 pontos, e hoje em dia conserva ainda a maioria dos records de melhor marcador da universidade, incluindo o de mais pontos num jogo (68) marcados a 3 de Fevereiro de 1957 frente aos Brookyn Poly. Também o seu número #44 é a única camisola retirada pela sua universidade, e também é membro do Hall of Fame de Quinnipiac e do Hall of Fame de basquetebol de New England.

Mas possivelmente a nomeação à qual teve mais ilusão foi a sua eleição para disputar com a equipa de Este o All-Star Game da NCAA de 1957. Assim, porque convertia-se no primeiro jogador de uma “small-scholl” a participar neste evento. Era a oportunidade da sua vida. No Madison Square Garden e transmitido em directo a nível nacional pela CBS. Poderia aí enfrentar os melhores do país e demonstrar o ser verdadeiro nível. Nos treinos prévios deixou boquiabertos os seus adversários, mas uma lesão numa perna antes do jogo impediu-o de jogar e mostrar o seu talento aos “olheiros”. Sem dúvida alguma uma das maiores desilusões da sua vida.

No ano seguinte 10 daqueles 20 jogadores estavam na NBA. 17 foram contratados no draft… e Porky formou parte dos outros 3. Não foi um draft que passou à história pela qualidade dos seus jogadores. Naquele All-Star os mais destacados eram Charlie Tyra e Jim Krebs, da universidade de Louisville e Southern Metodist respectivamente. Tyra apenas aguentou 5 anos na liga com 9 pontos de média entre os Knicks e Chicago Zephyrs, Krebs jogou com os Lakers em Minneapolis e em LA, se bem que o seu rendimento não foi muito melhor do que o de Tyra, chegou às finais de ’62 e ’63, em ambas as ocasiões perderam frente aos Celtics. Em 1964 retirou-se dos basquetebol ao aceitar um trabalho na banca, a tragédia tirou-lhe a vida a 7 de Maio de 1965 ao ficar esmagado por uma arvore que ele próprio cortava.

Era claro que apesar de não alcançar a NBA, entretanto Porky Vieira queria continuar a viver com o basquetebol. Numa temporada normal de NCAA jogava entre 20 a 25 jogos entre os meses de Dezembro e Fevereiro, porque sempre tinha muito tempo livre para jogar com diferentes combinados em ligas locais e jogos de exibição. Com os Rialtos, Sylvans, Savoy ou inclusive com os Porky All-Stars é donde a sua lenda alcançou o nível mas alto. Se tivesse nascido meio século depois, seguramente convertia-se numa legenda do streetball.

Da sua incrível habilidade podemos destacar quando conseguiu o record de melhor marcador da Liga Professional de Connecticut com 78 pontos, para no dia seguinte supera-lo com 89 pontos. Ou o dia em que teve de jogar com um olho vedado devido a uma forte ferida e marcou 49 pontos.Também teve a ocasião de jogar contra grandes jogadores da época e poder “sacar a espinha” daquele maldito All-Star.

Uma vez conseguiu vencer a Wilt Chamberlain 38 a 33 num jogo que acabou por se converter num duelo particular entre os dois; frente ao combinado de estrelas de Goose Tatum marcou 55; noutro jogo de exibição 27 contra os Knicks; ou no dia em que enfrentou a Hot Rod Hundley e no intervalo já tinha marcado 28 pontos. Simplesmente era um lançador nato. Podia encestar contra qualquer um.

Nunca mais o comboio do basquetebol de grande nível voltou a cruzar no seu caminho.

Os Harlem Globetrotters ofereciam-lhe um contracto para jogar contra eles formando parte da eterna equipa perdedora, e também os Lakers quiseram contratá-lo para promove-lo como jogador Professional mais baixo da história. Mas Porky não gostava do enquadramento comercial do basquetebol, não queria ser simplesmente uma atracção de feira, assim conduziu o seu futuro para a via do ensino. Primeiro esteve vários anos como professor de ginástica em St. Anthony’s High Scholl de Connecticut, para depois passar a treinador adjunto de basquetebol da universidade de New Haven.

Em 1963 o treinador de basebol da universidade abandonou o cargo, e o lugar foi parar ás mãos de Porky Vieira, que conseguiu com este desporto toda a fama que o basquetebol lhe negou. Concordou com o reitor que a partir desse momento se convertia em Frank Vieira, já que nem seu nome próprio (Florindo) nem a sua habitual alcunha (Porky) impunham respeito aos seus alunos.

A 30 de Junho de 2006, foi oficializada a sua retirada como treinador chefe da universidade de basebol de New Haven. Já não voltará sentar-se no banco do Frank Vieira Field, actual nome do estádio de basebol desta universidade. Para trás deixou 44 temporadas de êxito. Somente em 2005 não conseguiu que a sua equipa finalizasse com um balanço positivo de vitórias/derrotas.

Os seus números totais nestes anos são impressionantes: 1.127 victórias, 324 derrotas e 6 empates, conseguindo ser o treinador com melhores percentagens de vitórias em toda a história da segunda divisão da NCAA.

25 presenças no torneio da NCAA, 17 World Séries, 2 sub campeonatos e um total de 82 jogadores profissionais. Mas o registo de que mais se orgulha é o “0”. Zero é o número de vezes que ele ou um dos seus jogadores tenham sido expulsos do diamante do jogo em todos estes anos por conduta anti-desportiva

Talvez este número tenha algo a haver com o facto de que Frank Vieira foi durante muitos anos árbitro oficial da NCAA de basquetebol. E é que por muito que o basebol tenha marcado a sua vida, ninguém se esquece das suas origens.

 

 


 
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