A invenção do basquetebol
 
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A invenção do basquetebol

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James NaismithSe quisermos em poucas palavras descrever como se concebeu inicialmente o basquetebol, talvez pudessemos sintetizar dizendo que teve uma fecundação e gestação difícil, embora não muito longa, e um parto fácil e imediato.

A origem do basquetebol não é algo da qual se possa dizer que já se conhecem totalmente as suas nuances. Muitas vezes, nas “histórias do basquetebol” que abundam na internet, aparecem muitas afirmações que não são fidedignas ou precisas. Não sendo  dono da verdade procurei em várias fontes e cruzei várias informações aí existentes para poder ter uma visão mais aproximada do que terá acontecido. Estou ainda numa fase de pesquisa, não me sentindo  satisfeito com aquilo que encontrei até ao momento. Por isso gostaria de receber os comentários daqueles que têm outras informações ou interpretações.

Clair BeeO basquetebol provavelmente é o único desporto conscientemente “inventado” para ir ao encontro de uma necessidade reconhecida.

Clair Bee (1941)

 

Fecundação e gestação

… o Basquetebol… chega como a primeira grande solução desportiva às actividades motoras de pista coberta.Olivera Bétran

Como é sabido, o basquetebol surgiu no interior de uma instituição de carácter sócio-educativo, com valores religiosos e morais vincados, o Young Men’s Christian Association (YMCA). Esta organização surgiu na Inglaterra em 1844, expandiu-se pelo mundo inteiro, e de uma forma muito extensiva nos E.U.A. Uma das características do YMCA era a de utilizar abundantemente a prática dos desportos para atrair e educar os seus sócios.

Uma das razões imediatas para o aparecimento do basquetebol foi a necessidade de encontrar uma prática desportiva no interior de um ginásio, nos meses de Inverno rigoroso, que não permitiam a prática dos desportos de exterior favoritos dos sócios da YMCA. Assim, entre a época de football americano, no Outono e a de basebol, na Primavera, aquilo que o YMCA propunha aos seus sócios eram formas tradicionais de ginástica, em relação às quais os sócios jovens e adultos não aderiam, havendo mesmo sazonalmente uma debandada com consequências funestas para a instituição. Por isso, a necessidade de se encontrar uma solução era ao mesmo tempo evidente e urgente. Luther Gulick, director do International Training School de Sprinfield, Massachussetts, - escola de formação de quadros do YMCA, designadamente de monitores de Educação Física e desporto e também de secretários e administrativos, - na conferência do Verão de 1891 exprimiu na reunião do conselho de professores essa mesma necessidade. Nessa própria escola de formação, havia também problemas, inclusivé disciplinares, com uma turma de jovens adultos que se estavam a formar como futuros secretários/administrativos do YMCA. Ninguém os conseguia motivar com as tais práticas gímnicas existentes na hora diária que lhes era destinada à actividade física. Gulick incumbiu sucessivamente dois professores da escola – Halstead e Clarck - que no entanto falharam com essa turma dos “incorrigíveis”. Foi então que Gulick colocou a batata quente nas mãos do canadiano James Naismith, encomendando-lhe uma solução e dando-lhe o prazo de duas semanas. A Naismith, na altura com trinta anos, não lhe parecia ser assim tão difícil arranjar um jogo motivante.

Mas não foi bem assim. Naismith, durante os quinze dias seguintes fez múltiplas tentativas para agradar à referida turma. Experimentou adaptar os jogos de exterior mas, como era necessário adaptar as regras, os alunos não aceitavam jogar football americano travestido ou então essa prática revelava-se inviável pelas consequentes lesões que jogos viris provocavam em pisos inadequados e espaço restrito. Fez jogar também jogos populares e tradicionais mas os alunos novamente recusaram.

Foi então que Naismith resolveu partir para algo de novo, para uma “abordagem mais filosófica”. Por um lado tentou extrair princípios gerais dos jogos que conhecia e que  motivavam os jovens; daí partiu para a criação de regras adaptadas a esses princípios e ao tipo de condições materiais existentes dentro de um ginásio. Conseguiu assim resolver o problema de atratividade, incluindo a recreação e a competição tão do gosto dos jovens americanos e que eram o segredo do sucesso dos desportos por eles praticados ao ar livre.

Desse modo, misturando os seus princípios morais, - ele que era um homem religioso e que tinha estudado inicialmente no Canadá para ser pastor, - com as exigências de adaptação ao ginásio de que dispunha, ele inventou um novo jogo. Há quem veja na criação do basquetebol apenas uma aplicação dos princípios morais caros a Naismith. Eu penso que ela se deve mais a uma mistura diléctica desses princípios morais de respeito pelo próximo com a necessidade de adaptar a um piso duro um jogo de invasão (*) como é o caso do basquetebol.

A minha tese é assim um pouco diferente das que vejo mencionadas: o cuidado com o evitamento do contacto físico, conseguido através da estrita regra do contacto e da impossibilidade de placar (e correlativamente de se mover com bola) se estão em consonância com os princípios cristãos que Naismith prezava, decorreram de modo pelo menos igual da necessidade de encontrar uma solução para se poder jogar em pisos duros evitando desse modo lesões aos jogadores. É que Naismith era um praticante e treinador de outros desportos de contacto, incluindo o football americano e as lutas e não os considerava deseducativos pela existência dos contactos virís que inevitavelmente se produziam no calor da competição. Só que nesses casos as protecções, as regras e o tipo dos terrenos de jogo permitiam/absorviam essa virilidade.

Se me permitem uma metáfora, eu diria que a invenção do basquetebol correspondeu a um transplante de um jogo de invasão (*) nas condições de um ginásio pequeno e com piso duro. As regras especiais que Naismith foi criando e aperfeiçoando com o tempo, correspondem aos remédios que os médicos usam para evitar as rejeiçoes dos órgãos quando fazem os transplantes. Mais tarde outros o fizeram com o andebolde sete, recorrendo no entanto a soluções diferentes mas também plenamente satisfatórias.

Parto

Se a fecundação e gestação foram difíceis, fazendo desesperar Naismith e levando-o num certo momento a pensar em desistir, o parto foi fácil. Logo que extraiu os cinco princípios fundamentais do jogo (**), fruto da análise dos jogos conhecidos, Naismith escreveu as primeiras treze regras (***) pedindo à secretária do YMCA que as batesse à máquina de escrever para as expôr no ginásio. Naismith, antes mesmo de propor no campo o novo jogo estava convencido que desta vez os alunos iriam gostar. Ele, pelo seu lado, foi o primeiro “jogador” de basquetebol. Jogou-o em sonhos que penso ser uma forma comum dos treinadores praticarem este jogo.

Nesse jogo inicial, realizado em 21 de Dezembro de 1891 no ginásio do YMCA que hoje já não existe por ter sido demolido, os seus dezoito alunos, divididos em duas equipas de nove, demonstraram um formidável interesse e empenho. Terá sido “amor ao primeiro jogo”. Reza a história que só marcaram um cesto, do meio do campo por sinal, o qual seria um cesto de 3 pontos segundo o critério actual. William Chase foi o seu marcador.

Ao jogo, propuseram a Naismith que se chamasse Naismith-ball, o que este recusou sob o argumento de que um nome desses assassinaria à nascença o novo jogo. Foi proposto então e aceite o nome de basquetebol que continha os dois elementos materiais determinantes do jogo, o cesto e a bola.

Perfazem-se este ano 120 anos que o jogo de que tanto gostamos foi inventado. Na minha opinião deveria ser pretexto para um programa condigno de comemorações.

Uma iniciativa que eu suponho que ainda não se levou a cabo foi a tradução e edição em português do livro que Naismith escreveu em 1939, “Basketball. Its origins and development”. Se houvesse um conjunto largo de treinadores que dominasse o idioma inglês, organizados no seio da nova ANTB, tal não seria muito pesado para ninguém. Foi uma estratégia já utilizada no passado por outros colectivos de treinadores, no estrangeiro e inclusivé em Portugal. Naismith, se fosse vivo, penso que ficaria contente de ver essa edição em português, ele que disse um dia que “gostaria de deixar o mundo um pouco melhor do que o que encontrou”. Desse modo também nós, treinadores, deixaríamos mais ricos o património do jogo em Portugal. Seria uma forma colectiva de o fazer, nós que felizmente temos tido a oportunidade de beneficiar com a generosidade no passado de alguns dos nossos melhores.

(*) Definição de jogo de invasão: um jogo de invasão é aquele em que duas equipas se defrontam num campo comum e em que cada equipa, após a aquisição da posse da bola, tenta fazê-la avançar no terreno, invadindo o campo do adversário. O objectivo/meta do jogo encontra-se geralmente no fundo do terreno adversário, podendo ser uma baliza, um cesto ou uma linha. Como exemplos de jogos de invasão temos o futebol europeu, o futebol americano, o basquetebol, o andebol, o hoquei no gelo ou em patins, o lacrosse, etc.

(**) Os cinco princípios fundamentais do jogo são:

  1. A bola seria esférica, grossa e leve, sendo jogada com as mãos;
  2. Os jogadores podem deslocar-se em qualquer direcção no campo e podem receber a bola em qualquer momento;
  3. É interdito correr com a bola nas mãos;
  4. Os contactos pessoais serão interditos e penalizados;
  5. O cesto, de pequena dimensão, será colocado fixo e numa posição horizontal (a uma determinada altura do solo), de modo a fazer apelo mais à habilidade que à força.

(***) Não transcrevo aqui as treze primeiras regras pois são bastante facilmente encontráveis na internet e tornariam este escrito demasiadamente grande.

Se quiser ler um texto da minha autoria sobre esta temática, mais extenso e pormenorizado, e que além da fecundação e parto do basquetebol fala do seu desenvolvimento em vários aspectos, vá a capítulo 2.5:

Referências fundamentais

Lima, T.; et al. (1888). Basquetebol. Textos técnicos. Lisboa: Ministério da Educação. Direcção Geral dos Desportos.
Naismith, J. (1941). Basketball: its origin and development. New York: Association Press.
Naismith, J. (1996). Basketball: its origin and development. Lincoln and London: University of Nebraska Press.
Olivera Betrán, J. (1984). 1250 ejercícios y juegos en baloncesto. (Bases teóricas y metodológicas. La iniciación). Barcelona: Editorial Paidotribo.
Rains, B. (2009). James Naismith. The man who invented basketball. Philadelphia: Temple University Press.
Tavares, F.; Santos, A.; Santos, E. (2011) Sebenta de Basquetebol. Porto: FADEUP.

 

Comentários 

 
+2 #2 San Payo Araújo 04-11-2011 10:07
Quando me referia a 100 anos é evidente que são cem anos de basquetebol em Portugal.
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+3 #1 San Payo Araújo 03-11-2011 19:05
Caro Henrique

Bela sugestão a tradução do livro de Naismith. Como o basquetebol vai fazer 100 anos em 2013 seria uma das boas formas de comemorar esse facto. Se quiseres coordenar um grupo de treinadores, desde já ofereço os meus préstimos.

Bem-vindo à equipa de colaboradores do Planetabasket e um abraço.
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