Os métodos no ensino do jogo
 
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Os métodos no ensino do jogo

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livrosNa história do ensino do jogo foram aparecendo um conjunto de métodos de ensino, muitos dos quais provenientes do ensino em geral.

Vamos aqui fazer um breve historial crítico desses métodos.

O método com maior dominância no ensino do basquetebol, principalmente a partir do momento em que o ensino se começou a sistematizar é o método analítico. Um dos problemas do uso exclusivo deste método na aprendizagem do basquetebol é o facto de que ele apenas pode fazer aprender alguns aspectos delimitados desse todo que é a capacidade de jogo. Geralmente, só a capacidade de execução de um gesto, em condições estritamente delimitadas, é tratada. Ficam por desenvolver muitos outros aspectos de que depende a capacidade de jogar. E isso acontece pois o método analítico, pela sua natureza, despe a execução dos gestos e movimentos das condições da sua utilização em situação de jogo.

Por outro lado, já há muitos anos que este método, e principalmente a sua utilização exclusiva, são responsáveis pela baixa da motivação dos jogadores, principalmente dos mais jovens.

Se pensam que só muito recentemente estas questões críticas sobre o método analítico foram lançadas estão redondamente enganados. Desde meados do século passado, pelo menos, que alguns treinadores, ainda que minoritários, apontaram estas limitações e, consequentemente tentaram outras soluções para o ensino dos jogos. Numa obra de 1959, coordenada pelo professor francês Listello (Listello, 1959), vários desportos foram submetidos a tratamentos didácticos. No caso do basquetebol, especialmente, mas também a respeito do andebol, podemos ler coisas como estas:

“O estudo puramente analítico dos principais gestos técnicos permite melhorar rapidamente as relações jogador-bola, mas somente quando as consideramos as duas isoladamente.

De facto, recolocados no jogo, o jovem jogador é incapaz de aí utilizar a técnica correcta que ele pode adquirir fora das condições do jogo, mesmo se ele consagrou um tempo relativamente grande à prática da técnica.

É por isso que consideramos que é indispensável basear toda a iniciação primeiro no jogo. Este é, além disso, a actividade que as crianças gostam mais e, praticamente, as crianças aprendem a jogar jogando, e frequentemente jogando sozinhas.

Todavia, afim de aumentar os progressos e a sua rapidez, o educador procura intervir no jogo. Este torna-se “jogo dirigido””. (Listello, 1959)

Pedimos perdão por esta enorme citação mas fazemo-la porque ela é um todo que reflecte o pensamente inovador de um conjunto de educadores dos anos 50 do século XX. No entanto não se pense que este era o pensamento pedagógico dominante nesse tempo. Pensamos poder afirmar que mesmo muitas décadas depois, este tipo de ideias não foi ainda levado generalizadamente à prática, mesmo que a nível do discurso ele apareça abundantemente.

Nos anos oitenta, na Inglaterra, alguns professores de Educação Física e treinadores de diversas modalidades, formalizaram um novo modelo de ensino dos jogos desportivos a que deram o nome de Teaching Games for Understanding. Esse “ensino por compreensão”, passava por diversas fases, sendo que a prática do jogo – ainda que com regras adaptadas aos jogadores – era realizada logo de início, sendo que a apreciação das regras e o entendimento da táctica básica do jogo era o objectivo inicial. Entenda-se táctica como as decisões básicas a tomar no jogo, o quê e o porquê das acções. Só posteriormente o ensino das soluções técnicas era desenvolvido, não sendo descurado mas contextualizado pelos passos precedentes.

Para quem conheça a realidade das propostas existentes em França nos decénios precedentes, dirá que o TgfU – “ensino por compreensão” - não é modelo inovador, mundialmente falando. Realmente, já noutras zonas da Europa se vinham a congeminar soluções de ensino desse teor. Por exemplo, na Alemanha, tanto na de Leste como na Ocidental, alguns autores, como Friedrich Mahlo e Knut Dietrich, traziam novas luzes a estes problemas metodológicos. No entanto o “ensino por compreensão” sistematizou o seu tratamento de forma especial a ainda hoje apresenta desenvolvimentos consideráveis incluindos em congressos mundiais realizados regularmente.

Em Portugal, para quem conheça a nossa história do ensino do basquetebol, sabe que já desde a década de 60 se vinham apontando também críticas ao método analítico. Estamos convencidos que as influências francesas que nessas décadas eram as principais em relação à Educação Física portuguesa, eram as grandes responsáveis por isso. Pensamos que o ensino do jogo através do Basquetebol Simplificado, sistematizado pelo professor José Esteves, foi precursor do ensino pelo jogo e no jogo, rompendo o estrito analiticismo do ensino da época. Desse jogo e de José Esteves falaremos noutro destes nossos artigos.

E não é também verdade também que os nossos professores e treinadores de basquetebol vinham apontando desde a década de 70 e a de 80 do século XX para a importância de ensinar primeiro os “quandos” antes dos “comos” (Araújo, 1980; Barreto, 1980 ; Bom, 1980)? Estavam assim a dar continuidade à renovação de pensamento sobre o ensino dos jogos trazido pelos ventos do estrangeiro e reflectidos conscientemente e criativamente pelos nossos melhores estudiosos e práticos do jogo.

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Também aqui, do ponto de vista metodológico, os treinadores ganham imenso em conhecer a história do nosso jogo, incluindo a sua história social, cultural, técnica e humana. Não foi verdade que o primeiro método de ensino do jogo foi o do “ensinar a jogar jogando”? Quando Naismith afixou a folha com as treze regras do jogo na porta do pequeno ginásio de Springfield, dividiu a turma de 18 alunos em duas equipas de 9 e fê-los jogar de imediato. Que se saiba não se preocupou em ensinar primeiro os gestos técnicos antes do jogo. Logo aí um grande ensinamento pedagógico e metodológico ficou assente e que deveria ter sido aprendido por todos nós treinadores, quando começamos a ensinar o jogo aos principiantes. Evidentemente que o “ensinar a jogar jogando” só, não chega, quando queremos fazer evoluir os jogadores para patamares superiores, que não se restrinjam à mera recreação. Mas que o jogar e o jogo devem continuar a ser a referência principal e inicial para todos os que ensinam, isso parece ser um dado adquirido a nunca esquecer. Acrescente-se também que devido à incipiência ou mesmo inexistência de treinadores nas primeiras décadas da existência do basquetebol, tanto cá como no estrangeiro, assim como às condições limitadas para a prática do jogo, - duas tabelas e uma bola, - os treinos desse tempo reduziam-se em grande parte à prática global do jogo. É preciso dizer que o método analítico, quando surgiu, terá representado nesse momento um factor de evolução dos jogadores e do jogo. Só depois, a sua hegemonia trouxe a lume as suas limitações.

Mas voltando aos treinadores portugueses, um excelente livro de 1980 (Barreto), coordenado pelo professor Hermínio Barreto, tem afirmações fundamentais, ainda não ultrapassadas, acerca dos métodos de ensino do basquetebol. Consegue fazer uma crítica dialéctica dos métodos existentes na altura: o método analítico, o global e o misto. Acerca desses métodos dizia que “todos eles pecavam por se centrarem exclusivamente nos efeitos do jogo, ou seja nas soluções motoras que os praticantes utilizam no decorrer do jogo”. Descuravam por isso os aspectos da percepção e análise das situações e as soluções mentais respectivas, tão importantes para o jogo. Como alternativa a estes métodos, Hermínio Barreto indicava o “método de ensino centrado na acção (jogo) e no praticante”. Sem aqui podermos descrever esta nova metodologia, - remetemos os interessados para a obra citada, onde se encontra devidamente desenvolvida – podemos dizer brevemente que ela apelava para uma aprendizagem consciente e que considerava os jogadores como sujeitos da acção e da aprendizagem. Substituia a mecanização pela automatização (“aquisição consciente das estruturas tácticas e técnicas do jogo”), “a partir dos problemas que este (o jogo) coloca e permanentemente avaliadas na situação de jogo”.

Este escrito pretendeu ser apenas um bosquejo muito sintético sobre algumas das referências metodológicas do ensino do basquetebol ao longo dos tempos. É um tema que me interessa sobremaneira, que tenho vindo a tentar conhecer melhor e que em escritos posteriores tentarei desenvolver.


Araújo, J. (1980). Ser campeão. Lisboa: Editorial Caminho.
Barreto, H. (Ed.). (1980 ). Da actividade lúdica à formação desportiva: comunicações apresentadas no SM do Basquetebol.   Lisboa: ISEF-UTL.
Bom, L. (1980). Da actividade lúdica à formação desportiva. In H. Barreto (Ed.), Da actividade lúdica à formação desportiva (pp. 19-44). Lisboa: ISEF Lisboa.
Listello, A. (Ed.). (1959). Récréation et Éducation Physique Sportive. Paris: Éditions Bourrelier.

 

 


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