Alenquer e o basquete
 
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Alenquer e o basquete

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Prof. Mário JoelNa senda de ouvir o pulsar da modalidade, depois de termos dado voz a Hugo Martins de um clube dum grande centro urbano e após ouvirmos Jorge Duarte

a falar dos problemas e soluções da interioridade, chegou a vez de sabermos as dificuldades, que um clube duma grande Associação, mas afastado do centro, sente. Venha conhecer os projectos e sonhos dum clube que representa a interioridade nos grandes centros. Queremos divulgar o trabalho do Alenquer Basket Clube, onde nasceram para o basquete Carolina Gomes e Simone Costa, pela palavra desassombrada do Prof. Mário Joel, que há mais de dez anos entendeu que o concelho de Alenquer também devia ter basquetebol.

Como surgiu a tua ligação ao basquetebol?
Em primeiro gostaria de agradecer a oportunidade que o Planeta Basket me dá, de apresentar o trabalho que realizamos em Alenquer e de assim dar voz a todos os que como eu, lutam diariamente por esta causa.

A minha ligação ao basquetebol começou na escola. Enquanto jogador apenas por intermédio do Desporto Escolar e mais tarde como professor, pela mão do colega José Couto que me transmitiu em definitivo a paixão pelo jogo. Em 1996 na Associação Desportiva do Carregado inicio a minha ligação ao jogo como técnico, a qual assumiria até 1999, ano em que por questões académicas não foi possível prosseguir. Por consequência assumiria o comando da equipa de sub 14F do Despertar Sporting Clube, de forma a concluir a especialização na modalidade. A passagem por esse clube e pela Selecção Regional, bem como o sucesso académico e desportivo alcançado nesse ano, desenvolveu ainda mais o gosto pelo ensino do jogo.

Em 2000 e de regresso a Alenquer inicio a implementação na autarquia local do projecto “Rumo ao desenvolvimento Desportivo do Concelho de Alenquer”. O projecto pretendia assegurar em todas as escolas de 1ºciclo do município a expressão físico-motora e a criação de Centros de Animação Desportiva que permitiriam um primeiro contato, mais formal, com o desporto. O projecto abrangeu mais de 600 alunos, 120 dos quais se viriam a iniciar no minibásquete.

Quando e como é que surgiu o projecto do Alenquer Basket Clube?
Foi no âmbito do projecto atrás descrito, que surge o Alenquer Basket Clube, inscrito na Associação de Basquetebol de Lisboa, pela primeira vez em Janeiro de 2000.

Contudo, incompreensivelmente, o sucesso da iniciativa viria a desencadear movimentações dos clubes locais com maior expressão na Vila, com o intuito de derrubar o projeto. Nunca foi muito bem aceite, porque uma iniciativa deste género tinha conseguido em 6 meses movimentar mais atletas que os demais em modalidades com tradição na vila. A autarquia local, não percebendo as vantagens que um projeto desta natureza trazia para o município, acedeu, quebrando o vínculo que tinha com a iniciativa. Os jogadores, pais e amigos mobilizaram-se junto dos Paços do Concelho realizando aí a maior manifestação pós 25 de Abril e apesar da intransigência política verificada, os pais dos atletas resolvem constituir formalmente em 2002 o Alenquer Basket Clube.
 
Quais foram as dificuldades iniciais, como é que o projecto se desenvolveu?
As dificuldades iniciais foram como se percebe muitas. Os pais constituíram formalmente o clube, a Junta de Freguesia de Santo Estevão disponibilizou uma sala para o clube poder funcionar e o clube continuou o seu trabalho. Não havia na altura, uma tabela exterior (continua a não haver) de basquetebol no concelho, um único pavilhão com marcações oficiais, não havia treinadores, não havia dirigentes, mas havia já crianças que se deslocavam na vila com uma bola de basquetebol no braço. Nada mais que isso e um Vereador de Desporto (hoje presidente da Câmara Municipal) que na altura da formalização do clube dizia em jeito de gozo para os pais: “Quando o clube acabar não se esqueçam de devolver as bolas que vos demos”, infelizmente Sr Presidente já não temos nenhuma dessas bolas.

Durante os anos que se seguiram até aos dias de hoje a descriminação foi total. Durante 6 anos, recebíamos da autarquia menos de metade do que tínhamos de pagar às funcionárias da autarquia para podermos jogar no pavilhão da Chemina. Durante 3 anos, esse pavilhão, por não ter marcações, obrigava-nos a marcar a “fita de pintor” todos os fins-de-semana o campo para os sub-14 jogarem. Sim sub-14, porque apesar de tudo, continuávamos a crescer e tínhamos em 2004 já os escalões de sub-8, sub-10, sub-12 e sub-14M e sub-14F, com treinadores formados por nós e já com carteira de treinador.

Sempre que as férias escolares chegavam o pavilhão municipal fechava e os miúdos lá tinham que parar 15 dias. No Verão com campos de férias programados, parcerias estabelecidas com as escolas, empresas de transporte e cadeias de supermercados, a autarquia não permitia que se realizasse o evento, porque tinha de pintar o pavilhão (até hoje não foi pintado).

Quando começamos a competir regularmente queríamos marcar os jogos pediam-nos que o fizéssemos com brevidade. Apesar de marcarmos em Outubro, quando surgia outro evento éramos obrigados a trocar.

No início das épocas nunca conseguíamos começar a época antes de começar o ano letivo porque curiosamente, como já se disse, os pavilhões municipais funcionavam para nós só em período escolar.

Nos dias de hoje a descriminação é sobretudo em termos de apoios financeiros. Um outro clube da vila para o mesmo nº de atletas recebe 25x mais que nós.

Ainda este ano e depois de durante mais de um ano os nossos directores (encarregados de educação) exigirem as novas marcações oficiais, foram os treinadores que deitaram mãos à obra e as fizeram no pavilhão da EB 2,3 de Alenquer, por forma a podermos continuar a actividade. Curiosamente para uma alteração semelhante levada a cabo para a modalidade de hóquei em patins, foram apenas precisas poucas semanas entre o pedido e a obra.

Neste momento quantos jogadores é que o Alenquer Basket Clube tem?
Apesar de tantas as dificuldades, temos cerca de 100 atletas e as equipas de sub 8, sub 10, sub 12, sub 14M, Sub 14F, Sub 16M, Sub 16F, Sub19F e Seniores Femininos.

Um trabalho que permitiu chegar a algo impensável à 10 anos atrás. Temos hoje no Feminino uma equipa de Seniores constituída por jogadoras na sua maioria formadas no clube e algumas fizeram inclusivamente todo o percurso formativo no clube.

Mas começam agora a surgir dificuldades de outra índole, financeiras. Os clubes neste momento pagam tudo. Filiações, inscrições, seguros, arbitragem. O reconhecimento por formarmos, atletas, dirigentes, treinadores e até (indirectamente) encarregados de educação. A vantagem em se ser filiado, neste momento, resume-se à possibilidade de integrar quadros competitivos. O sistema desportivo entrará em colapso brevemente.

Que importância teve o minibásquete no arranque do projecto e que importância tem actualmente?
O minibásquete é a razão de tudo o que temos neste momento. Os 120 Minis que tivemos no arranque, possibilitou uma boa base para podermos criar a estrutura que temos hoje. Pena que não conseguimos atualmente a mesma dinâmica. No entanto a aposta no Mini continua a ser a nossa grande preocupação, com a dinamização dum projeto intitulado o “Minibásquete nas escolas de 1º ciclo”, que nos permite continuar a trabalhar em parceria com a escola local e termos cerca de duas dezenas de Minis.

Sabemos que tem uma grande preocupação na formação e actualização de técnicos, tendo inclusivamente há cerca de um ano realizado uma iniciativa inédita, que foi um workshop para treinadores, quantos técnicos tem o clube actualmente e qual a sua formação?
O clube tem actualmente 7 treinadores, todos com carteira de nível 1 ou 2, 5 dos quais com habilitação Académica Superior na área das Ciências do Desporto. Fazemos a nossa formação internamente, com inclusão de acções de aperfeiçoamento técnico, com treinadores do clube e treinadores convidados. Quando tivemos a ideia de fazer um workshop para os treinadores, foi porque diariamente se levantam dúvidas, que somente através da partilha de conhecimento  “de campo” se consegue desfazer.

No âmbito dessa preocupação, iremos realizar por altura do Torneio de Alenquer, integrado no plano de actividades do evento, iniciativas direccionadas para a formação de treinadores, para além do já tradicional Mega Convívio de Minibásquete e do Torneio nos restantes escalões do clube.

Quais são actualmente as vossas maiores dificuldades?
Atualmente as nossas maiores dificuldades para além da descriminação que falei, é o facto de um jogo em casa em Alenquer custar 100 euros. Como é possível, perante o cenário de apoios descrito, sobreviver quando em média por fim de semana em Alenquer se disputam 3 a 4 jogos em casa. E o maior problema é que ninguém está preocupado com isso, mas é esta situação que provavelmente “matará” um clube que luta, há 12 anos, pela modalidade e por possibilitar aos jovens e crianças de Alenquer uma formação desportiva salutar. E que apesar das dificuldades todas, foi o responsável pela formação de atletas como a Simone Costa (atualmente Benfica e Seleção Nacional) e a Carolina Gomes (atualmente Algés).Outra dificuldade, que certamente surgirá, é a cobrança (uma vez mais) de taxas de utilização de Pavilhão por parte da Autarquia cobrando uma vez mais muito mais do que dá. O subsídio dado ao clube refira-se, é igual ao que dá à colectividade cuja única actividade que tem, é abrir o “café” das 20h00 às 24h00.

O que é que tu pensas que poderia ser feito pela tua Associação e pela Federação para melhorar o minibásquete no país. Tens medidas a sugerir a breve e a médio prazo?
As soluções estão perfeitamente identificadas, só que acredito, não sejam fáceis de implementar e em alguns casos não dependem apenas da Federação ou das Associações.

Em primeiro lugar a formação dos técnicos. Apesar de recentemente reformulada a formação de Animadores, Monitores e Treinadores está errada. É diferente ser-se Animador, Monitor (Mini Basquete) ou treinador. Os objectivos da prática são diferentes a população alvo é diferente e como tal os técnicos, devem ter competências diferentes. A um treinador de Cadetes ou Juniores (sub 16/sub18, 19 ou 20) o que interessa ter no seu currículo competências na área dos Minis(?), ou o contrário, a um Animador, o que interessa saber de ataques contra zona, defesas zona press, ou então programar através de Macrociclos e microciclos(?). Os níveis de formação atuais (I, II, III) deveriam existir sim, mas dentro de uma especialização escolhida (Animação, Iniciação/ Orientação e Rendimento), por cada um. Um animador que se queira dedicar exclusivamente aos Minis não tem como progredir em termos de conhecimento.

Aliás este é o problema que está na base de vermos em competição situações como, as defesas zona mascaradas nos Iniciados (sub14), os bloqueios diretos nos Minis ou a dificuldade de arrancar para o lado “fraco” nos seniores.

Em termos de quadros competitivos o erro também é predominante, procura-se reproduzir os quadros competitivos dos adultos. Em Lisboa até se marcam faltas de comparência quando o clube não pode estar presente, mesmo que justifique a ausência. Em vez de punir os faltosos dever-se-iam antes premiar os bons exemplos.

Cada Associação deveria ter uma equipa para a Coordenação do Mini Basquete, com ligação ao Comité Nacional e Coordenações Zonais, que permitiriam descentralizar de Lisboa os convívios de Mini Basquete. Quando começámos a nossa actividade no Mini Basquete, em termos competitivos, estivemos perto do ideal, onde tínhamos precisamente isso. Na zona de Alenquer e VFX tínhamos uma coordenação zonal que assegurava convívios quinzenais, para além do convívio mensal distrital. A dinâmica era muito grande. Agora uma vez mais está entregue apenas aos clubes.

Acredito que o nº de Minis esteja a descer, contrariamente ao que se apregoa, em parte por aquilo que se disse. Outro aspecto errado são as selecções de sub 13 e sub 14. Como já tive a oportunidade de escrever. É fácil escolher entre tão poucos, mas muito difícil encontrar a qualidade em tão reduzido número.

Nós temos competência para fazer melhor que inclusivamente os Espanhóis. Mas temos de inverter prioridades. Como é que podemos estar preocupados com selecções, quando temos uma das menores taxas de praticantes desportivos da Europa e quando aos que temos não se lhes dá a eles nem aos clubes, condições para fazerem um trabalho a longo prazo.

O que interessa festejar um título Nacional de Sub 14, quando na sua maioria das vezes apenas 1 ou dois desses jogadores chega a Senior com alguma qualidade.

Qual é a tua opinião sobre a importância do Planeta Basket no panorama do basquetebol nacional?
Qualquer que seja o espaço onde clubes, treinadores, dirigentes e atletas possam apresentar as suas experiências, anseios, angústias, dificuldades e ideias, será benéfico a bem do Basquetebol Português. O Planeta Basket insere-se nesse tipo de iniciativas, como tal a sua importância é elevada. Precisamos reorganizar os quadros formativos e competitivos do Basquetebol Português, com vista a obtenção de sucessos de forma consistente e para isso temos pessoas com a qualidade, que podem contribuir decisivamente para isso, precisam apenas de ser ouvidas e levadas a sério.

Que pergunta gostarias que te fizesse e que resposta darias?

Quais os objectivos do clube a médio e longo prazo?

A curto prazo o Alenquer Basket Clube deve procurar estabilizar a sua estrutura técnica e diretiva e dinamizar melhor o Mini Basquete, por forma a conseguir de forma consistente elevar a qualidade da formação.

A Longo prazo conseguir nos Masculinos o que conseguiu nos Femininos, uma equipa senior fruto de uma base consolidada com todos os escalões sem interrupção.

As equipas seniores nunca foram a preocupação do clube, mas percebemos que são hoje o objectivo dos mais novos e se isso prolongar o vínculo da criança e jovem ao desporto, só por isso já vale a pena a sua existência.

 

Comentários 

 
+5 #2 Fernando Gomes 24-02-2012 07:39
Os requisitos são tantos que é quase impossível satisfazê-los a todos, estando quase só ao alcance dos "colossos" que, recrutando sem olhar a meios, "formam" os atletas por outros descobertos.

A discrepância dos apoios municipais agudiza ainda mais as diferenças já que, sem culpa para os clubes envolvidos, entre inscrições, seguros, pavilhão, arbitragens e deslocações há clubes que, felizmente para eles, usufruem de apoios que facilmente ultrapassam os 20/30 mil euros, verbas que os restantes têm que recolher para funcionar.
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+5 #1 Fernando Gomes 24-02-2012 07:37
Excelente entrevista, que retrata fielmente a realidade de muitos clubes, não apenas do interior mas também dos grandes centros urbanos.

As dificuldades de que o Joel fala são comuns, a busca por apoios é diária, de forma a poder dar aos atletas as melhores condições ao nosso alcance.

Apesar de todo esse esforço estes "pequenos" clubes nunca poderão almejar ao estatuto de clube formador, que defenderia de forma um pouco mais eficaz o labor por eles realizado.
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