Modelo(s) de jogo: necessidade ou ornamento?
 
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Modelo(s) de jogo: necessidade ou ornamento?

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Henrique SantosOs treinadores portugueses, pelo menos os reconhecidamente mais competentes, desde há muito tempo têm demonstrado capacidade de reflexão e acção no campo estrito das 4 linhas.

Mário Gomes, em intervenção recente, no fim de 2011, afirmou, no entanto, uma certa incapacidade ou alheamento dos treinadores relativamente ao que para além das 4 linhas tanto tem marcado o nosso basquetebol. Há quem chame a esse âmbito, política em sentido nobre. Na minha modesta opinião e na esteira de muitos dos nossos melhores treinadores nacionais, tanto de basquetebol como de outras modalidades, a política desportiva define, para o bem e para o mal, o desenvolvimento das modalidades e para além disso, é um fator de desenvolvimento cultural, social e educativo importantíssimo.

Se falei num artigo anterior de políticas de desenvolvimento desportivo, hoje o assunto que trago aqui é mais delimitado: trata-se da questão do “modelo(s) de jogo”.

Não pretendendo esgotar o assunto aqui, em primeiro lugar por falta de competência, não deixo no entanto de formular algumas perguntas e avançar com algumas referências que podem contribuir para melhor conhecer o assunto em causa.

O que é um modelo de jogo? É importante definir um modelo de jogo previamente ao ato de ensinar/treinar? Deve existir um modelo de jogo para o basquetebol português?
Ao atrever-me a tentar responder a estas perguntas começo por reparar que ao longo de várias décadas, vários treinadores, individualmente ou em colectivo, tentaram definir um modelo para o basquetebol português, em função da caracterização que faziam da sua realidade de momento. Aliás, cada treinador digno desse nome, define para si próprio e para a sua equipa um modelo de jogo que quer ver expresso em campo. Fá-lo a partir do que conhece do jogo e do que conhece dos jogadores e equipa própria e adversárias. Esse modelo de jogo é uma parte integrante e importantíssima da sua filosofia de treino. Quando os treinadores são mais ambiciosos e tentam intervir no seio da comunidade de treinadores de um país, geralmente pelo fato de terem sido incumbidos de orientarem seleções, então acontece que deixam plasmados em documentos a sua ideia de modelo de jogo.

Antes mesmo de apresentarmos alguns exemplos concretos que conhecemos, definimos modelo de jogo como a formalização em ideias acerca das formas como se quer que uma equipa jogue, no ataque e na defesa, nas várias fases do jogo e sua ligação. Para formular esse modelo, os treinadores partem de ideias pré-existentes mas também da análise concreta da realidade em que as equipas e jogadores que orientam evoluem. E para aprofundarem esse modelo de jogo, os treinadores definem sistemas e dispositivos, ofensivos e defensivos, enunciam princípios de jogos, funções dos jogadores, etc. Um dos primeiros teóricos que sistematizou a questão da modelização foi o romeno Leon Teodorescu sobre o qual já escrevi um artigo. Segundo ele, pode-se e deve-se modelizar muita coisa nos desportos, desde o modelo de jogo ao modelo de preparação respectivo. A este respeito é incontornável a leitura do seu único livro editado em português (Teodorescu, 1984).

Mas como eu disse no início, aqui vou apenas fazer algumas referências que gostaria de ver completadas pelos leitores ou por mim num artigo subsequente.

Um dos aspectos importantíssimos da modelização é partir de um conhecimento atualizado da realidade. Dou como exemplo, no passado, o trabalho extremamente meritório feito pelo professor Carlos Gonçalves que, sozinho e a expensas suas ou acompanhado de outro(s) companheiro(s) treinadores, escreveu imensos relatórios sobre Campeonatos ou Torneios internacionais. Apenas possuo dois desses exemplares, mas sei que o professor Carlos Gonçalves elaborou muitos mais. Esses estudos contêm imensos aspectos importantes sobre as competições, sobre as equipas, jogadores, formas de jogo, estatísticas, apreciações, etc. Relatavam também outros conteúdos interessantes ligados às competições, tais como os Clinic’s que lá se realizavam complementarmente. No dizer conhecedor do professor Hermínio Barreto, “Carlos Gonçalves mantém com particular relevo o tratamento das grandes competições internacionais, divulgando minuciosos relatórios” (1983).

É através do conhecimento do que acontece no basquetebol por esse mundo fora que os treinadores nacionais podem melhor contribuir para a melhoria do basquetebol nacional, mas só isso não chega. Outra forma importantíssima é a participação concreta em digressões de preparação ou em competições internacionais, seja através de equipas de clubes seja através de equipas representativas de Portugal. Permitam-me um pequeno comentário a este respeito. Toda a gente sabe que a competição é a forma de preparação mais eficaz para uma equipa, mais até do que estágios ou os treinos. O fato de atualmente os nossos clubes não participarem em competições internacionais, por razões que sabemos, está a ser altamente prejudicial para a evolução das nossas esquipas representativas.

Se há pouco falámos do interesse que tinham os relatórios feitos pelo professor Carlos Gonçalves, um exemplo recente de um excelente trabalho desta natureza, embora mais abrangente, encontramo-lo num artigo que o treinador Mário Gomes elaborou e que foi publicado aqui no Planeta Basket em Junho de 2008: “As tendências do jogo e o basquetebol português”.

No passado outras tentativas de modelização para o basquetebol nacional foram apresentadas dando contributos muito válidos sobre a mesma questão do modelo de jogo para Portugal:

  • Jorge Araújo por várias vezes apresentou propostas para o modelo de jogo nacional. Aliás, essas propostas integravam-se na sua forma de estar propositiva relativamente ao desporto e à modalidade de que são testemunho os seus muitos livros publicados. O facto de ter sido selecionador nacional e ter uma larga experiência nesse campo faz com que as suas propostas sejam a resultante de um saber feito de muitos embates desportivos, na procura de soluções para desvantagens assinaláveis (morfológicas, entre outras) que as equipas que dirigiu apresentavam nos confrontos internacionais. Em 1978, no número 1 da Revista “O Treinador” que está disponível no site da ANTB para os sócios registados, este treinador apresentou as suas propostas para o basquetebol português. E afirmava que os contactos internacionais das nossas equipas representativas eram um fim e um meio. “Um fim pois permite a avaliação do estádio evolutivo ou regressivo da modalidade relativamente à Europa ou ao mundo em geral. Um meio porque só o estímulo que eles encerram e as conclusões técnico-tácticas que deles formos retirando nos proporcionarão os elementos capazes de ao redor deles promovermos os centros de interesse para jogadores e técnicos.”
  • Em 1980, o mesmo Jorge Araújo publicou na mesma revista, “As fases de transição no basquetebol português” (J. Araújo, 1980a), no mesmo número da revista em que Carlos Gonçalves fazia um “Balanço global EuroJunior-80”. Em 1981, nos cadernos de O Treinador, Jorge Araújo, como diz Hermínio Barreto, aceita mais uma vez a provocação e escreve: “Basquetebol português, que processos tácticos?”.
  • A nível pessoal, muitos dos livros de Jorge Araújo são o relato das suas opções e acções como treinador de muitas equipas, contando os sucessos de “Ser Campeão” (J. Araújo, 1980b), mas também alguns dos seus insucessos, que na sua opinião foram muito formativos (Jorge Araújo, 2003). A última vez que apresentou ideias sobre modelo de jogo, se não estamos equivocados, foi no livro “Basquetebol. Modelo de jogo”, escrito em parceria com Carlos Pinto e Mário Leite.
  • A última vez que tive a oportunidade de ver um treinador português a expressar as suas ideias para o nosso basquetebol foi pelo treinador João Carlos Oliveira, num clinic organizado pelo Grupo Desportivo Bolacesto no final de 2011. Na sua intervenção apresentou ideias muito interessantes, originais e mesmo controversas. Soube no entanto defendê-las com coerência e apresentar algumas formas de treino para lhes dar realidade em campo. Aliás João Oliveira já tinha no passado expressado em livro as suas opções para o jogo de selecção Cadete quando teve responsabilidades nacionais nesse setor. Referimo-nos ao livro “O Puzzle do Seleccionador Nacional de Basquetebol”.

Para finalizar a apresentação de exemplos de modelizações, não quero deixar de mencionar um outro tipo de modelo, este de natureza formativa e fruto do trabalho do professor Hermínio Barreto e dos seus companheiros de trabalho no então Instituto Superior de Educação Física de Lisboa. No seio da opção de treino desportivo de boa memória, elaboraram aquilo que hoje é conhecido como um “Modelo de desenvolvimento do praticante” de basquetebol e que se dirige à iniciação à modalidade, tendo em conta as linhas de evolução do basquetebol dialeticamente integradas com a evolução dos praticantes. (Barreto, 1984, 1980 ). Ainda de Hermínio Barreto, chamo a atenção para um artigo extremamente interessante de 1970 em que este treinador, ex-jogador da seleção nacional, apresentava de forma muito formativa para todos os treinadores, a maneira como resolveu um problema com que as suas equipas eram confrontadas em jogo (Barreto, 1971). Um bom exemplo de descrição do trabalho e pensamento de um treinador.
Destas linhas anteriores que escrevi tenho consciência que são incompletas e porventura pouco acertadas.  Espero pelas vossas correcções. Mas há algo de que tenho uma consciência de necessidade bastante incisiva: para que qualquer tentativa de modelização para o basquetebol nacional resulte, importante será que ela parta de uma consciência de necessidade colectivamente formada pelos treinadores portugueses, capaz de os fazer pensar e trabalharem colectivamente. Fora disso, não passaremos de fogachos, que por vezes até podem arder mas cuja consistência no tempo deixará sempre a desejar. O estado actual do nosso basquetebol de que não nos podemos orgulhar, não será uma resultante, em parte e à distância, de uma fragmentação e individualização do trabalho dos treinadores portugueses, evidenciada na paralização ocorrida na ANTB no início da década mas que já vinha de trás? Esperemos que a recente restauração da ANTB reme no sentido contrário.


Araújo, J. (1980a). As fases de transição no basquetebol português Seleccionar, dirigir, preparar. Tarefas do treinador. Comunicações do 1.º Clinic, A.N.T.B. Lisboa: Compendium.
Araújo, J. (1980b). Ser campeão. Lisboa Caminho 
Araújo, J. (2003). DIÁRIO de um treinador. O insucesso como meio de aprendizagem. Lisboa: Caminho.
Barreto, H. (1971). Basquetebol: (Técnica e Táctica). Educação Física Desportos Saúde Escolar, VII(3), 14-25.
Barreto, H. (1984). Estratégia de formação: modelo de desenvolvimento do praticante. Lisboa: ISEF-UTL.
Barreto, H. (Ed.). (1980 ). Da actividade lúdica à formação desportiva: comunicações apresentadas no Seminário de Metodologia do Basquetebol.  . Lisboa: ISEF-UTL.
Teodorescu, L. (1984). Problemas de teoria e metodologia nos jogos desportivos. Lisboa: Livros Horizonte.

 

Comentários 

 
+1 #1 Humberto Gomes 19-03-2015 04:08
Prezado companheiro,
Não obstante a distância - seguro de que apenas geográfica e circunstancialm ente, temporal(já distam
quase 3 anos !) -, quiz-me aproximar, produzi um despretensioso escrito, um pouco inspirado neste artigo e ...saiu como saíu : Modelo de Jogo.
Já com alguma experiência nestas andanças, grato pela inspiração que me proporcionou na incessante procura de ir conseguindo preencher os 3 vértices do triângulo, C.E.S. : Conhecimento -
Experiência - Sabedoria, naturalmente que este último muitíssimo exigente, pelas componentes que lhe estão subjacentes : saber - saber fazer - saber estar.
Para evoluir, continuarei a ir "a jogo", e com humildade QB, porque também já aprendi que : Sábio, é aquele que sabe que sabe pouco !
Um abraço.
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