Os usos das estatísticas
 
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Os usos das estatísticas

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Os usos das estatísticas“Nós que seguimos o basquetebol sabemos que as estatísticas não mentem, mas tampouco contam toda a verdade. É preciso ler nas entrelinhas.”
O rotulador de Zelijko

Há muitas décadas que no basquetebol se faz a utilização de estatísticas. Anteriormente, outros desportos foram pioneiros no seu uso, como foi o caso do Beisebol, particularmente dotado para o uso dos números nas “avaliações” das componentes desse jogo.

Aqui há uns quarenta e cinco anos, aquando de uma visita académica realizada no âmbito do meu curso de Educação Física, foi interessante mas sobretudo surpreendente verificar como um dos clubes mais importantes do futebol português ainda não utilizava essa ferramenta para análise do jogo e construção dos seus planos de treino. Penso que isso se estendia a todos os clubes nacionais.

E quando perguntei ao professor anfitrião porque é que isso acontecia, já que nesse tempo a estatística era generalizadamente utilizada no basquetebol nacional, ele, à boca pequena, respondeu-me que isso se devia ao baixo nível de QI no meio futebolístico!!! Enfim, discutível. É claro que sabemos como agora, todos os clubes profissionais de Portugal usam, penso eu, muita tecnologia e estatísticas avançadas para poder analisar os jogos e construir modelos de jogo e de treino. O dinheiro e os recursos humanos no futebol não têm comparação com os proporcionados ao basquetebol.

Não fiz um estudo profundo e sério desta questão e não sou especialista nela. Contudo, nestes apontamentos que faço, sempre numa perspetiva histórica, gostaria de aportar alguns elementos históricos que talvez não estejam totalmente despojados de importância.

O primeiro tem a ver com um uso que eu chamaria de pitoresco das estatísticas. Muita gente houve e talvez ainda haja, que faz uma utilização extensiva de estatísticas, recolhendo abundantes indicadores como quem coleta coisas que não sabe muito bem para que servem, mas que fazem sentir bem quem os possui.

Contudo, é um facto que os treinadores passados e presentes, com inteligência e pragmatismo, sempre procuraram munir-se daqueles dados que consideravam importantes para a orientação do seu trabalho. Tudo para realizar uma avaliação concreta e real das suas equipas e jogadores, e, evidentemente das adversárias, nas componentes do jogo que queriam e precisavam influenciar.

Conheço dois momentos em que se usou a estatística de forma muito inteligente e sistemática: com Pete Newell (podem ver um pouco dela na tradução de uma entrevista sua e publicada aqui no Planeta Basket há umas semanas) e com Dean Smith, colaborando com o seu amigo treinador Al McGuire. Estes treinadores baseavam a questão estatística na avaliação da posse da bola e no seu respetivo valor. Smith e McGuire explicaram o seu sistema no livro “Defensive Basketball”, de autoria principal de McGuire, que saiu no início dos anos 60 e que está acessível numa procura na net, como também está acessível outro livro de nome “Ofensive basketball”. Se houver interessados é só dizer que eu darei a referência para os encontrarem.

No início da década de oitenta, Dean Smith fez sair o seu livro “Basketball - multiple offense and defense”, livro considerado e muito bem, pelo coach Bobby Knight, como um dos livros mais inteligentes que foram escritos sobre o nosso jogo. Aí, Smith, começa desde logo o livro, introduzindo a base estatística do seu sistema. Se pensam que vão encontrar uma abundância desconexa de números vão ao engano. O que há ali é uma forma de escolher e manejar os números que são necessários, de forma lógica e precisa para poder chegar a conclusões úteis para as decisões tético-técnicas (e não só) a aplicar nos jogos e respetiva preparação. Vale a pena ler, reler e estudar esse livro. Tanto pela base estatística como pelo que depois decorre.

Daí para a frente e chegando aos tempos de hoje em que a tecnologia está de tal forma avançada que permite a recolha de dados descomunais em tempo real, com as, julgo que chamadas, métricas avançadas, o progresso tem sido fabuloso.

Acabo, no entanto, perguntando. A cabeça da maioria dos treinadores tem acompanhado esse avanço tecnológico ou, muitas vezes, não se continua naquilo que atrás mencionei como um uso pitoresco?

 

 


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