Manter o conceito, mudar o discurso é decisivo para ajudar a compreender uma ideia, que eu aprendi com um dos grandes mestres do ensino do jogo deste país: o Prof. Hermínio Barreto.
A ideia fundamental do Prof. Hermínio Barreto, e estou a falar apenas dos escalões mais novos do minibásquete, os Mini-8 e Mini-10 e numa fase perfeitamente inicial da aprendizagem do jogo, é a ideia de proteção ao portador da bola. Ainda me lembro da metáfora utilizada pelo Hermínio Barreto, para justificar esta proteção.
Dizia o professor: Se um pai ou alguém quer ensinar e entusiasmar uma criança a pescar, deve levá-la nas primeiras vezes para um lugar de sucesso garantido. O aprendiz tem, pelo menos algumas vezes, sentir o peixe a picar o isco. Deve levá-la para um lugar em que a criança sinta algum sucesso, de preferência que consiga pescar um peixinho. Se a levar para um lugar em que nunca sente nada, nem pesca nada, dificilmente conseguirá convencer a criança a voltar à pesca.
A interpretação deste espaço de proteção ao portador da bola, foi erradamente interpretada como não podes roubar a bola ao portador, para que ele tenha algum espaço e sucesso. Esta indicação, proibitiva, retira iniciativa ao defensor tornando-o muitas das vezes demasiadamente passivo, o que é contraproducente. Então como resolver esta situação? Em vez de dizermos não podemos tirar a bola ao portador da bola, em vez de introduzirmos uma proibição, introduzimos indicações de ações defensivas, que a criança tem de fazer. As indicações são: Tens que impedir que o portador da bola consiga progredir para o cesto, tens que impedir que ele faça um passe, tens que impedir que ele lance ao cesto, mas não pode haver contacto pessoal.
Esta noção de não poder haver contacto pessoal, remete-nos para as origens da modalidade em que a regra fundamental era todo o contacto pessoal era falta. É evidente que a modalidade evoluiu e hoje num jogo de seniores este conceito, que todo o contacto pessoal é falta, já não faz sentido algum. Contudo eu ainda sou do tempo em que o contacto pessoal na modalidade era muito mais restritivo, de tal modo, que em tom de brincadeira, nós costumávamos dizer que o andebol, onde o contacto é muito mais permitido era judo ou karaté com bola.
Nas etapas iniciais dos escalões mais novos o regresso às origens da modalidade, em que a regra base é todo o contacto pessoal é falta para proteger o portador da bola faz para mim, assim como fazia para o Prof. Hermínio Barreto. As grandes vantagens de mudarmos o discurso são as seguintes: Para impedir que o portador da bola avance para o cesto, o defensor tem de descobrir onde é que se tem de posicionar.
Aquilo que eu mais assisto nas fases iniciais é que o defensor não tem preocupação de se posicionar corretamente e tenta através duma carga de ombro introduzir o braço em frente ao portador da bola para lhe roubar a bola. Quando o contacto pessoal é autorizado o número de situações de bolas presas cresce exponencialmente. No caso do passe e do lançamento, o defensor em vez de aprender a cortar uma linha de passe ou dificultar um lançamento, preocupa-se apenas por roubar a bola e na maioria dos casos em falta.
Se mudarmos o discurso, mantendo o conceito de proteção ao portador da bola, através do regresso ao conceito das origens do basquetebol, todo o contacto pessoal é falta damos espaço ao outro conceito já abordado num artigo anterior, arbitrar minibásquete, nomeadamente nos escalões mais novos e nas etapas iniciais é saber interpretar o grau de desenvolvimento motor das crianças e arbitrar basquetebol é saber interpretar as regras do jogo.
Antecipando já perguntas, e se uma criança consegue roubar a bola a outra sem haver contacto? Resposta simples: pode! Não houve contacto, mas sejamos sinceros num jogo de Mini-8 quantas vezes é que isso acontece? Nunca pode haver contacto? Pode, mas são casos excepcionais, como por exemplo quando numa disputa de bola, duas crianças chegam rigorosamente ao mesmo tempo à bola.
Contudo, uma vez mais, quantas vezes duas crianças chegam rigorosamente ao mesmo tempo à bola? A questão de fundo nunca foi se pode ou não haver roubo de bola, a questão de fundo é se nas etapas iniciais, para que as crianças sintam algum sucesso, devemos ou não dar alguma proteção ao portador da bola? Mantenhamos o conceito, mudemos o discurso.











